A marginalidade da marginalidade: uma vida em 18 milhões

A sociedade brasileira cresce dentro de estereótipos, no qual todos os cidadãos “devem” se enquadrar em certas características impostas por uma cultura que aprendeu a sempre criticar o próximo (nem sempre isso é ruim ou bom).

Dentro dessa necessidade de criticar, nascem barreiras entre esses grupos, seja diferença entre classes sociais, diferenças raciais, ou como podemos observar em nossa sociedade, ambas são coorrelacionadas (erroneamente, em meu ponto de vista).

Nossa sociedade vive em uma divisão de classes sociais, no qual pessoas de diferentes classes não podem frequentar o mesmo espaço. Talvez esse raciocínio seja muito agressivo (ou realista), porém é o que vemos hoje nas ruas, pessoas vivendo em realidades totalmente diferentes, sendo constantemente marginalizados e descriminalizados.

Após essa breve análise sobre a sociedade brasileira, entrevisto um morador de rua. Com suas palavras, podemos analisar o contexto tratado acima.

Pergunta: Você poderia me falar seu nome, sua idade, se trabalha e onde mora?

– Meu nome é Patrício, tenho 43 anos, moro aqui nesse barraco. Pego um papel, uma latinha, um papelão, madeira, ai a gente ganha uma coisinha pra sobreviver né cara.

Pergunta: Você pode me contar um pouco da sua história, desde sua infância, de onde veio?

– Eu nasci em Recife, vim pra cá com uns 15 anos, vim com a minha família. Vim para sobreviver, trabalhar, lá tava difícil de conseguir alguma coisa. Cheguei aqui, trabalhei 2 anos na Folha do Estado, distribuindo e arrumando jornal. Depois que fui despedido, to vivendo na rua fazem 18 anos. Quando eu  cheguei aqui, é o seguinte, não é ruim, mas também não “tá” bom. Por que quando tiver bom, “ é” quando eu tiver com meu lugarzinho pra morar, com emprego fixo, ai a gente fica um pouco mais adequado. Mas ta bom, o importante é respeitar e fazer tudo com cabeça erguida.

Pergunta: Por que você acha que existe uma divisão tão grande entre as pessoas de classe alta, com as classes em desenvolvimento?

– Vou te falar a verdade, como diz, não podia ter essa divisão. Sem querer desrespeitar, o pobre tem que ser submisso ao rico, infelizmente a única coisa que posso falar “é” aguardar por alguma coisa diferente. Temos que saber lidar com eles e procurar sobreviver, e até tentar um jeito melhor de viver.

Pergunta: Qual é a reação das pessoas quando passam perto de você?

– Muitos eu vejo na feição que não tem preconceito, até se aproximam. Infelizmente tem os dois tipos, não podemos julgar, mas infelizmente existem pessoas assim.

Pergunta: O que significa Governo para você? O que é política?

– Nesse debate não tenho um grande conhecimento, mas vou ser sincero, muita coisa falsa, muita coisa falta. Pessoas que “tão” ali querendo uma oportunidade, mas as vezes não consegue e parte pra um outro lado. No meu caso mesmo, deveria ter uma oportunidade. São tantos terrenos sem utilização, o governo poderia fazer um planejamento, um condomínio para o pessoal de rua. Com isso, quem sabe não haveria uma esperança do pessoal largar o crime “tendo” um lugar melhor pra morar. Trabalhando, plantando, colhendo, precisam de alguma coisa pra ocupar a mente. Se eu mesmo achasse um lugar que eu pudesse ler, escrever, desenhar, me esforçar mais pra jogar esse pensamento pra baixo, pudesse andar mais com rumo, eu seria uma pessoa melhor.

Pergunta: Você observa uma distância entre o povo (ou você) do governo?

– Demais, meu voto não tem peso, de jeito nenhum. Votei na última eleição, vou ser sincero, tem que ter esperança, respeitar a justiça, o peso da balança, mas fazer o que né, tem que votar.

Pergunta: Mas você viu algo de diferente da época que você votou pra cá?

– Até empréstimo eu tive que fazer de um amigo. Sem governo, a gente tem que ficar no aguardo.

Pergunta: Você tem desejos? Se quiser pode compartilhar.

– A minha esperança é arrumar algo “pra” família e “pros” outros. Eu vou ser sincero, minha maior vontade, era ver nosso país mais centrado. Eu sei que é até uma ilusão minha, mas minha impressão é que eu vejo coisas de outros países na televisão, e aqui é o caos. O tratamento com a natureza, presta atenção, repara e “ve”, é necessário preservar a natureza, vai no parque pra ver. O único país que eu habitei foi o Brasil, e temos que honrar, mas a preservação da natureza, limpeza de lago, calçada, pra muitos isso não significa nada, imagina pro governo, entendeu? A minha vontade é essa.

Com essa entrevista, podemos analisar que parte da nossa sociedade marginalizada sente que estão nessa situação, por não ter oportunidade, e que essa oportunidade só pode surgir que o Governo colaborar com isso.

Também podemos perceber que essa mesma classe necessita suprir suas necessidades primárias, e nem isso essas pessoas podem. Então como uma pessoa que vive nessa realidade, pode se tornar um ser político se não pode suprir suas necessidades primárias e é totalmente marginalizado e separado da sociedade, tanto pelos próprios cidadãos, quanto pelo Governo?

Muitos podem criticar essa minha linha de raciocínio dizendo que minhas intenções são tornar uma sociedade utópica e que isso é uma parcela pequena da sociedade, porém estamos falando de 16,27 milhões de pessoas em situação de extrema pobreza (renda domiciliar entre zero e R$70), 8,5% da população brasileira (dados do IBGE utilizando o Censo Demográfico de 2010). Ou seja, estamos falando que, praticamente, 1 em cada 10 brasileiros vivem em condições extremamente precárias. E também nesse cálculo não consta as pessoas que vivem entre R$70 e R$100 reais mensais.

Concluindo, todo os dias estamos nas ruas e vemos moradores isolados e até sendo humilhados, e simplesmente ignoramos. Não lembramos que eles são humanos e que muitos deles tem histórias extraordinárias, com uma simples conversa, eles podem mudar a sua realidade, e você, a deles. Não gostaria de tratar esse assunto dessa forma, apontando pra dois lados, porém é o que a nossa cultura nos impõe, marginalizarmos as pessoas de baixa renda, sem levar em conta a essência de todos, sermos seres humanos.

Então vamos nos conscientizar que podemos fazer a diferença para essas pessoas, sendo por uma iniciativa de cada ser humano, ou nos tornando pessoas políticas, ou seja, começar a ser pessoas ativas no processo político e também discutirmos mais sobre isso, pois nós somos a fonte de poder para mudar o que nos insatisfaz.

“Quando eu  cheguei aqui, é o seguinte, não é ruim, mas também não “tá” bom. Por que quando tiver bom, “ é” quando eu tiver com meu lugarzinho pra morar, com emprego fixo, ai a gente fica um pouco mais adequado.” – Patrício, 43, morador de rua.

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